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17 de Agosto de 2019

Como construir uma carreira em advocacy

Minha paixão era política. Queria trabalhar por isso. Negociação, tolerância e persistência são fundamentais, escreve Ricardo Martins

Jota Info, Jornalista
Publicado por Jota Info
há 2 meses

A formação em Ciências Sociais é uma delícia, mas tem seus custos. A carreira profissional projetada para aqueles que se dedicam ao estudo de Sociologia, Antropologia e Ciências Políticas – tripé das Ciências Sociais no Brasil – é essencialmente voltada para a vida acadêmica, o que não é um problema em si, mas a mim sempre representou uma limitação.

Lembro-me até hoje quando nos idos de 2005 procurava estágios em portais de emprego na internet e digitava as palavras-chave “ciências sociais”. A angústia da tela branca dos resultados não era pequena para um jovem à procura de iniciar sua carreira.

Com as portas estreitas no mercado e a fim de produzir fora do circuito acadêmico, fui tentar a sorte naquilo que chamavam de “empreendedorismo cívico”. Que não é propriamente uma área para a qual você se candidata; tem mais a ver com as coisas que você quer criar, grupos que você pretende reunir, ideias que você quer lançar no mundo.

Empreender é um termo estranho quando aplicado às ciências sociais. Não fomos treinados a experimentar fora da academia. Talvez por dentro das instituições sim: movimentos estudantis, centros acadêmicos, sindicatos e partidos compõem um ambiente de aprendizagem e exercício político para cientistas sociais; mas observar o cenário político, encontrar brechas e conceber um projeto político do zero costuma estar fora de cogitação.

Minha primeira experiência nessa área foi no Oásis Santa Catarina, um movimento que levou 300 jovens do país inteiro a reconstruir as áreas públicas afetadas pelas enchentes no estado em 2008. Eu estava lá, um tanto descrente das possibilidades profissionais da academia, e de repente vejo esse chamado. Eu atendi e isso fez toda diferença. Para além da assistência e do voluntarismo, havia ali uma engenharia de mobilização e de engajamento da própria população local na reconstrução dos espaços que me chamou muita atenção: “então quer dizer que dá para chamar uma galera e tentar resolver as coisas por nós mesmos, hm… então tá!”

Mas a minha paixão era política. Queria trabalhar por isso.

Após concluir minha graduação, decido ir fazer o único mestrado que me interessava naquele momento. Era na França, na minha área de formação e com a curiosa ênfase em Influência Social. Lendo a ementa do curso descobri que estudaria movimentos sociais, campanhas de opinião pública, psicologia social, processos de democracia participativa e deliberativa no mundo. Fui e na volta ao Brasil, em 2012, um amigo me chama para ajudar na construção de um movimento por uma reforma política no país.

O Eu Voto Distrital (EVD) fora criado em 2011 e propunha uma mudança no sistema eleitoral como forma de resolver a crise de representatividade que já pairava no Brasil naquele momento. Foi no EVD que aprendi o bêabá sobre o que é empreender politicamente. Abrir um CNPJ, redigir um estatuto, desenhar um modelo de negócios (sim, isso existe mesmo quando você depende de doações), planejar campanhas, mobilizar nas redes sociais e para ações públicas. Aprendi também a programar, editar vídeos, usar photoshop. Dei minhas primeiras palestras e entrevistas. Existe todo um fetiche meio juvenil em torno do empreendedorismo, mas para quem realmente faz isso – não apenas nos palcos – há muito aprendizado.

Tudo que aprendi nessa primeira experiência, foi colocado à prova quando fui escalado para o Bom Senso FC. O BSFC foi um movimento capitaneado por atletas de diversas divisões do futebol brasileiro em defesa da modernização e da democratização das instâncias de governança no esporte. Tive a honra de trabalhar na condução estratégica do movimento, nas interfaces com atores políticos diversos e muitas vezes concedendo entrevistas em nome do grupo.

Aquilo que se iniciou como um movimento que fazia protestos no gramado foi ganhando densidade política e capacidade de advocacy. Pouco mais de dois meses depois da minha chegada e já estávamos em reuniões com atores importantes de diversos segmentos do futebol. Depois passamos a nos dedicar à realização de estudos e produção de propostas efetivas para a melhoria do futebol brasileiro.

Leia artigo de Ricardo Borges Martins completo no JOTA.info

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